Acha que a meditação não é para si, porque é demasiado ativo? Pensa que a meditação é ficar sentado com as pernas cruzadas durante horas a fio? Já experimentou meditar e desistiu, porque não conseguiu parar de pensar? Se respondeu sim a alguma destas questões continue a ler. Tenho boas notícias! A meditação é para todos, abandone estas ideias e desfrute dos seus benefícios.

Pode até parecer uma novidade, no entanto a meditação é uma prática muito antiga, com origem nas tradições orientais, especialmente relacionada com o budismo e o hinduísmo. Apesar de estar cada vez mais difundida nos dias de hoje, a meditação já conta com mais de 3 mil anos de história. Os mais antigos relatos sobre a meditação vêm da Índia e da China, 1.500 a.C. na filosofia Vedanta do hinduísmo e entre 500-600 a.C. no taoísmo na China.  Por volta de 500 a.C. o budismo começa o seu legado através dos ensinamentos deixados por Sidharta Gautama, Buda.

Mesmo com tantos anos de existência, somente em 1970 é que a comunidade científica começou a ganhar o interesse no estudo da meditação como tratamento complementar de diversas doenças e sintomas, como é o caso da fibromialgia, stress, ansiedade, depressão, dores crónicas, entre outras. 

A partir desta altura, começa-se a falar de meditação no Ocidente e posteriormente, por volta de 1985, com o início das técnicas mindfulness, a prática é sistematizada, excluindo a filosofia e o seu caráter devocional, presente na cultura oriental. Com esta nova abordagem, as práticas meditativas começam a atrair muitos curiosos por todo o mundo. No entanto, os desconhecimentos sobre alguns aspetos da prática ainda hoje geram mitos sobre o tema. 

A ideia de ser algo difícil e lento, que funciona apenas para quem é calmo, afasta muitos curiosos e desencoraja algumas pessoas a dar os primeiros passos na meditação.

Comecemos pelo mito que oiço com mais frequência:

 

1 – Meditação é parar de pensar

Talvez seja um dos maiores equívocos em relação à meditação. Quando alguém me diz que não consegue meditar porque não consegue parar de pensar, costumo perguntar, “O que acontece quando lhe dizem para não pensar em algo?” Ora, a mente vai automaticamente pensar nisso.

Pensar é um processo natural da mente e ter como objetivo parar de pensar, para além de irrealista, gera sentimentos de frustração em relação à prática. Estima-se que temos entre 50.000 e 70.000 pensamentos por dia. Por isso mesmo, quando vamos meditar, é irrealista acreditar que estes pensamentos irão desaparecer subitamente.

Com a prática regular, podemos, sim, alcançar momentos em que não pensamos em nada e, dessa forma, diminuímos a flutuação de pensamentos gerados pela mente.

 

2 – Meditar é controlar os pensamentos

Esta ideia normalmente surge no seguimento da anterior. A mente deve observar os pensamentos procurando não segui-los, os pensamentos surgem e desaparecem constantemente.

Tentar controlar os pensamentos gera esforço, e uma mente em esforço não consegue meditar. Em alternativa, procuramos estar num lugar de observadores da mente, observando esse fluxo de pensamentos e mantendo uma atitude equânime, ou seja, evitando criar aversão ou apego aos pensamentos.

Em vez de forçar a mente a pensar apenas em coisas positivas, o convite da meditação deve ser o de contemplar o fato de que somos mais do que a nossa mente, aceitando tudo o que surgir.

Eventualmente, com a prática regular, conseguimos criar um espaço de silêncio interior, em vez de sermos dominados pela mente.

 

3 – A meditação também não é um escape dos problemas ou da realidade

Pelo contrário, a meditação procura a libertação dos condicionamentos em que vivemos, mas isso não significa fugir dos problemas. A verdadeira liberdade consiste na integração de tudo o que somos e na aceitação da realidade. Só podemos ser livres quando abraçamos todas as nossas partes, e isto inclui as partes dolorosas.

Spiritual Bypassing foi um termo criado pelo psicólogo e professor Budista John Welwood para descrever a utilização de práticas espirituais como forma de evitar lidar com sentimentos dolorosos ou fugir a situações desconfortáveis da nossa vida.

O objetivo da meditação não podia estar mais longe desta ideia de fuga aos problemas. Na verdade, a meditação capacita-nos para lidar com os problemas de uma forma construtiva, pois aprendemos a aceitar as situações como elas são, em vez de lutarmos contra elas. 

Não temos como evitar os desafios que surgem, mas podemos escolher como interpretá-los.

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4 – A meditação demora muito tempo até surtir efeitos

A veracidade desta afirmação depende da regularidade da prática. Se meditarmos todos os dias de uma semana, conseguimos perceber algumas diferenças na nossa mente e na forma como reagimos perante os desafios. No entanto, se pararmos de meditar, facilmente a nossa mente volta ao modo piloto automático.

Para sentirmos os efeitos da meditação, precisamos de comprometimento com a prática, de dedicar tempo para parar e estar verdadeiramente connosco.

 

5 – É preciso meditar durante muitas horas

Esta ideia também costuma vir acompanhada da anterior. Não precisamos de meditar durante horas para sentir os seus efeitos. Quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade. É preferível dedicar dez minutos todos os dias do que uma hora num mês.

À medida que tornamos este hábito em algo diário, a nossa disposição para dedicar mais tempo à prática vai aumentando e a qualidade da nossa atenção também.

 

6 – Preciso de me sentar em posição de lótus para meditar

A postura de lótus é a imagem que associamos logo à meditação, mas não é um pré-requisito para meditar. O único requisito é encontrar uma posição confortável, em que a coluna esteja alinhada.

Se estivermos desconfortáveis numa postura, dificilmente conseguimos relaxar ou concentrar em algo para além do quão desconfortável estamos. 

Por último, e reforçando a ideia inicial deste artigo, qualquer pessoa tem capacidade para meditar, porque a meditação é um estado inerente a qualquer um de nós. 

A palavra, que vem do latim, meditare, significa “estar no seu centro” ou “voltar-se para o centro”. Meditar é, portanto, voltar ao centro, ou seja, voltar ao nosso estado natural.  É um processo de autoconhecimento, onde aprendemos a conhecer a nossa mente, em vez de sermos dominados por ela. 

Não há posições obrigatórias, não temos de dedicar horas infinitas, nem esperar uma vida para sentir os seus efeitos. A única condição fundamental é a regularidade, manter uma rotina diária para usufruir dos benefícios. 

 

Tem um minuto para experimentar? 

Ponha tudo de lado por um minuto. Coloque o telemóvel em modo voo e encontre um local calmo.

Por um minuto convido-o a abandonar todos estes mitos e outros que eventualmente possa ter em relação à meditação. Convido-o a pôr de lado quaisquer expectativas que tenha em relação à sua experiência de meditação. Encontre apenas uma posição em que esteja confortável e com a coluna alongada, pode fechar os olhos para facilitar o processo de concentração e escute por um minuto o bater do coração, o ritmo da sua respiração e as sensações físicas que surgem no corpo. 

Quando um pensamento ou emoção surgir deixe simplesmente que apareça e, tal como surgiu, deixe que desapareça naturalmente. Torne-se testemunha da sua própria mente.