Semelhante a programas de prevenção de abuso de substâncias, a formação especializada e a consciencialização para educar as crianças e os jovens sobre os sinais de alerta de dependência online, podem contribuir para uma intervenção precoce.

A família, além de toda a comunidade, torna-se um elo relacional fundamental para prevenir os critérios que fazem parte de uma dependência. Contudo, é essencial notarmos que há uma grande diferença entre 3 conceitos – utilizadores “normais”utilizadores problemáticos e utilizadores dependentes – e que, tipicamente, o termo “dependência online” acaba por ser generalizado, mesmo em indivíduos que efetivamente (ainda) não padecem de uma dependência propriamente dita, visto que não cumprem os critérios necessários para que sejam designados como dependentes.

Ora, segundo Daniel Sampaio, há uma grande percentagem de jovens até aos 24 anos que estão permanentemente ligados à Internet, designados de utilizadores “normais”Por outro lado, existem alguns indivíduos que têm uma utilização problemática da Internet. Estes indivíduos utilizam-na de forma excessiva e em detrimento de outros interesses da sua vida, como estar com a família e amigos, uma vez que a sua zona de interesse está mais focada no mundo digital.

Depois, há uma pequena percentagem de dependentes. Temos mesmo de sublinhar que é (ainda) uma pequena percentagem, onde existe uma utilização profundamente excessiva e onde a dependência invade o quotidiano do jovem, comprometendo muitas vezes a aprendizagem escolar, os relacionamentos familiares e com os amigos, o comportamento alimentar, podendo, até, provocar distúrbios a nível do sono. Quando se retira a dependência online, normalmente gera-se um comportamento de falta do dispositivo (semelhante a uma dependência química), que se manifesta em ansiedade, agressividade, cólera, entre outros.

Todavia a Internet não deve ser vista como um “bicho papão”, uma vez que há enormes vantagens a nível do bem-estar que podem ser promovidas por alguns dispositivos online, como por exemplo jogos interactivos. Posto isto, é indispensável termos em atenção a linha –  que é bastante ténue – que separa aquilo que é bom e útil, como a inter-relação entre as pessoas, daquilo que designamos como dependência.

A verdade é que, para o universo geral das crianças e adolescentes, a utilização é benéfica. Porquê? Porque, como diz Daniel Sampaio no seu livro “Do Telemóvel Para o Mundo”, o telemóvel, é efetivamente uma porta aberta para o mundo, para o conhecimento, e não podemos negar que a internet é algo que está inerente e faz parte das nossas vidas.

O importante cada vez mais, não é proibir a utilização destas ferramentas, mas que exista uma autoridade partilhada e um espaço individual dentro da família, no sentido de potenciar a negociação combinada (e se necessário, contratualizar por escrito) entre pais e crianças. 

É importante que existam momentos definidos em que ninguém pode usar o telemóvel, pois os pais, muitas vezes, também o fazem, acabando por não ser um bom exemplo a seguir. Em algumas situações, os pais podem até encaixar no perfil de um utilizador problemático, aumentando o risco de todas as pessoas estarem no seu telemóvel e de não comunicarem entre si. 

Por outro lado, também não podemos, nem devemos, retirar a Internet da vida dos adolescentes, pois esta já faz parte das suas rotinas. Devemos, sim, pensar em conjunto e encontrar estratégias de negociação, do género: “Queres tirar mais partido desse jogo, de que tu gostas tanto, sem que haja problemas aqui em casa?”.

É necessário reflectirmos sobre o facto de que o problema não está no Facebook ou Instagram per si – estas são excelentes ferramentas quando bem usadas – mas sim na gestão que cada um faz da utilização das mesmas. Conseguimos perceber isso pelas analogias que alguns estudos fazem com outras dependências, nomeadamente com o álcool. Não se esqueça da máximaum copo de vinho por dia, não sabe o bem que lhe fazia”: deve assim existir um equilíbrio saudável nesta área, tal como em todas as dimensões da nossa vida. 

O caminho da prevenção. Por onde ir?

  • Os pais devem reflectir com os seus filhos sobre as consequências negativas do uso excessivo da Internet, adequando a linguagem, materiais e estratégias a cada faixa etária, de forma a prevenir uma utilização problemática e, em alguns casos, uma futura dependência.

 

  • Monitorizar os filhos enquanto usam a Internet, reflectindo em conjunto sobre o que é seguro e útil para eles e que métodos de cibersegurança e utilização são os mais ajustados. Este suporte às crianças e adolescentes promove o equilíbrio sem comprometer a sua utilização.

 

  • Profissionais de saúde, como psicólogos, podem direcionar os adolescentes para que entendam os fatores subjacentes aos seus hábitos online e, em alguns casos, voltem a integrar no seu dia-a-dia as atividades que anteriormente eram prazerosas para eles (como desporto, teatro ou música), ajudando a prevenir casos suspeitos de dependência online.

 

  • É importante educar para o facto de que através de programas de prevenção de Dependência Online podemos reduzir a ocorrência de incidentes futuros e diminuir o risco de dependência digital.

 

  • Uma das formas de precaver a Dependência Online, é também prevenir alguns fatores de risco como a solidão, o stress, a depressão e a ansiedade, que podem desencadear a dependência propriamente dita. Neste sentido, os profissionais de saúde mental devem psicoeducar os indivíduos através da prevenção e, nos casos em que tal já não é possível, realizar uma intervenção ajustada a cada um, por forma a potenciar que também eles identifiquem estratégias de utilização saudável da tecnologia.

 

  • As forças de segurança pública e a escola têm também um papel importante em fornecer acções de formação sobre o uso saudável e adequado da Internet, especialmente pelos adolescentes, que são mais vulneráveis. Portanto, o passo mais urgente neste campo é a educação e a informação. Devemos perceber, no entanto, que o bloqueio de certos sites é necessário, nomeadamente de sites pornográficos e de publicidade enganosa. etc. Claro que isto é apenas uma forma de mitigar o problema, visto que o bloqueio é temporário, porque os jovens acabam por conseguir contornar estas barreiras de cibersegurança e aceder a conteúdos que, muitas vezes, são desajustados à sua faixa etária. Por isso, cada vez mais, a consciencialização por parte dos pais, e da comunidade em geral, é indispensável.

 

  • Na situação atual, as políticas governamentais devem investir no sentido de uma utilização equilibrada da Internet, por forma a que este fenómeno seja naturalmente enraizado na comunidade.

 

  • Deve ser feita mais investigação, para perceber o impacto que os programas de formação educacional de dependência na Internet têm apresentado e os resultados a nível da eficácia, na prevenção de novos casos, de forma a melhorar a satisfação e coesão da sua utilização.